“O MARTÍRIO DOS EXECUTIVOS”.
Dr. Dirceu Rodrigues Alves



Levantamento entre cargos mais elevados nos diversos setores de trabalho mostrou que 62% da população usam calmantes, relaxantes, ansiolíticos, soníferos, anorexígenos, antidepressivos, bebidas alcóolicas, cigarros, drogas ilícitas, etc. O ser humano trabalha como máquina, crescendo suas preocupações com relação ao trabalho, com sua diretoria e seus subordinados. Isso gera sensação de instabilidade emocional, o indivíduo torna-se agitado, muitas vezes hiperfalante, outras vezes silencia. Muitos se tornam agressivos com as pessoas com quem convivem, quer no trabalho, quer no lar. As indefinições de condutas, por não ter autonomia para decisões e o depender de outros geram amargo desconforto na estrutura emocional de qualquer cidadão. Muitas vezes a decisão pode ser tomada, mas qual será a repercussão, não só para os subordinados, mas principalmente para os chefes. Tudo ocorre para que o indivíduo se agite a ponto de transformar alguns sentimentos que está vivenciando naquele momento, em algum sinal ou sintoma físico, caracterizando de maneira bem definida e conhecida, a somatização dos distúrbios emocionais. Em determinadas ocasiões e situações o quadro é tão alarmante fazendo com que haja a perda total do autocontrole e a necessidade de um atendimento médico de urgência. A somatização produzindo uma dor torácica inespecífica, sensação de falta de ar, formigamento de extremidades superiores e peri-labial, tonteira, adinamia, queda do estado geral.
E como proceder?
A formação moral, o caráter, personalidade, a maneira de ser, a formação e o direcionamento para o trabalho, o rigor ao cumprimento de preceitos morais, éticos e sociais e a auto punição prévia, antes mesmo de iniciar um plano, um projeto, levam o executivo a viver emoções durante toda sua jornada de trabalho. O desencadear da tarefa, muitas vezes não tem as coisas básicas para um bom raciocínio, bom desempenho e a produção plena com todas as ferramentas e conhecimentos aflorados. Existem fatores inibitórios que gerarão dificuldades na confecção do trabalho, e que não será para seu realizador um trabalho pleno, cheio das qualidades que pretendia embutir. O homem evolui por caminho complexo e que é o produtor das instabilidades emocionais, das somatizações (transformação de alterações do estado psíquico em sinais e sintomas orgânicos reais). E como, nessas condições, pode o ser humano tornar-se produtivo? Que qualidade de trabalho veremos ser desencadeada? Os fatores extrínsecos e intrínsecos têm que ser do conhecimento e domínio do cidadão. Não se pode entender que fatores externos venham produzir alterações psíquicas tais que impedirão o prosseguimento da atividade. Ao mesmo tempo, os fatores intrínsecos caracterizados pelo perfil emocional do trabalhador não poderão derrubá-lo a ponto de deixar de ser produtivo. A busca a tranqüilidade, a harmonia, o equilíbrio entre forças intrínsecas e extrínsecas nos dará a estabilidade para o bom desempenho. O número de estímulos é muito grande no dia a dia para gerar tal desequilíbrio. Sem tempo hábil, com mecanismos de defesa vulneráveis, o indivíduo é engolido pela máquina de fazer nervoso. Acaba alicerçando-se em uma estrutura química capaz de atuar no seu sistema nervoso central impedindo as reações contrárias a tudo que está vivenciando. Daí a expressão, “Não reaja às situações, aceite-as, conviva com elas”. Mas o produto químico reduz bastante todos os mecanismos de reação orgânica quando o limiar do estresse se insurge.
Dá excelente sensação de bem estar, tranqüilidade, segurança, harmonia e tudo que não se consegue dominar nas auto agressões. Tal fato gera a necessidade de buscar aquele comprimido, tão pequeno, que não dá para acreditar que tenha uma ação tão potente. E vamos usando, muitas vezes aumentando doses em função de maior agitação, tensão no dia a dia. Com isto deixamos de buscar soluções para o tripé do equilíbrio emocional. Não buscamos a reestruturação das coisas que produzem o desequilíbrio, que esgotam, “estressam” e nos levam aos distúrbios de comportamento os mais variados, desde a agressividade à depressão, da insegurança à debilidade, da fragilidade à doença. Drogados somos excelentes executivos, mas esta é uma condição de risco. Excelentes executivos temos que ser sem máscaras, sem subterfúgios e como indivíduos de boa cultura, buscar suprir as necessidades básicas no perfil emocional, para que este possa manter como um todo o organismo humano.
Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior
CRMSP 26.759 Médico do Trabalho - Chefe do Departamento de Medicina Ocupacional ABRAMET - Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. Email: dirceu.rodrigues5@terra.com.br

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