Repercussão do sono sobre o trabalho
Dr. Dirceu Rodrigues Alves



Resumo
Aqui é dada atenção
para a valorização de um sinal e sintoma que
muitas vezes torna-se inexpressivo para quem avalia a causa
de um acidente. São abordados distúrbios do
sono com ênfase para privação do sono
e a síndrome da apnéia obstrutiva do sono.
Justifica-se o porquê da necessidade do sono, como
ele surge e que efeitos produzem no organismo. Trabalhadores,
chefes, empresários, serviço de engenharia
de segurança e medicina do trabalho são alertados
para os perigos e conseqüências das jornadas
longas, horas extras e mudanças de turno de trabalho.
Como posso regular a alimentação,
repouso, necessidades biológicas do indivíduo
que opera uma máquina móvel extremamente perigosa
para si, para o usuário, pedestre e a sociedade como
um todo?
Dentro de uma fábrica
com uma equipe de engenharia de segurança e medicina
do trabalho torna-se mais fácil controlarmos os trabalhadores.
Difícil é controlar tais trabalhadores no
que chamamos de “Indústria”. “do
Transporte”. As dificuldades ocorrem de múltiplas
formas desde a distribuição das máquinas
nas ruas, avenidas, rodovias, a contenção
do ruído, redução da vibração,
da higiene ambiental, etc.
A repercussão do
organismo do homem sobre o trabalho também se torna
incontrolável tamanha são as condições
que propiciam o risco de acidente. Aequipe de segurança
e medicina do tráfego precisa voltar-se para os sinais
e sintomas muitas vezes subjetivos, mas importantes na prevenção
de doenças ocupacionais e acidentes de trabalho.
Quantos acidentes são causados todos os dias pelo
sono? Quanto tempo é necessário para o indivíduo
se recuperar de uma jornada de trabalho?
As perguntas se somam e
desenvolvemos este texto sobre o assunto chamando a atenção,
esclarecendo e orientando os operadores, chefes e todos
que direta ou indiretamente estão envolvidos com
trabalho de alto risco de acidente.
SONO: Porque Ocorre?
O sono acontece muitas vezes
independente da vontade, mas pela produção
do hormônio chamado melatonina. É um neurohormônio
produzido pela hipófise na ausência de luz.
Ao fecharmos os olhos ou num ambiente de penumbra a hipófise
começa a produzir tal hormônio que induz ao
sono. A maior produção de melatonina ocorre
no período de 00h00min as 06h00min sendo o momento
de pico entre 02h00min e 03h00min. Este hormônio também
pode ser produzido quando se ingere carboidratos (massa,
açúcar, farinhas), após um banho morno
prolongado e também na exposição a
raio solar.



No mesmo período
da tarde entre 12h00min e 18h00min e mais intensamente entre
14h00min e 15h00min sentimos sonolência pelo mesmo
mecanismo. O sono é muito importante na nossa vida
e se não dormimos não conseguimos sobreviver.
A importância do sono é que quando estamos
dormindo o organismo regula o sistema imunológico,
o sistema hormonal e recompõe os neurotransmissores.
Conseqüentemente o sono é uma necessidade básica
como é o comer, ingerir líquidos, etc.
Passamos dormindo um terço
da nossa vida.
A melatonina é uma
idolamina oriunda do triptofano e serotonina e funciona
como um antioxidante retarda o processo de envelhecimento.
Devido à produção
constante desse hormônio em ciclos, passamos um terço
da vida dormindo. Nada substitui o sono. Se não dormimos
deixamos de regular o organismo. O fato de não dormir
hoje e dormir o fim de semana todo, não compensa,
não repõe o que se deixou de regular. Tendo
esta conduta estamos deixando o organismo vulnerável.
Irão aparecer sinais e sintomas que produzirão
alterações que não conseguiremos corrigi-las
e logicamente doenças as mais variadas.
O sono determina sucesso diurno porque
melhora:
- Humor
- Vigília (Atenção)
- Energia
- Raciocínio
- Produtividade
- Segurança
- Saúde
- Longevidade
O hormônio melatonina
é produzido em grande quantidade no jovem. É
por isso que ele dorme mais a ponto muitas vezes de passar
o dia inteiro dormindo e ser difícil de deixar o
leito.
Concentração
de melatonina no sangue (ng/ml) (nano grama/mililitro):
Período diurno
Pré-puberdade 21,8
Adulto 18,2
Idoso 16,2
Período
noturno
Pré-puberdade 97,2
Adulto 77,2
Idoso 36,2
Já o idoso dorme bem
menos, a produção da melatonina cai quase
à terça parte do que o jovem produz.
Sinais
de sonolência:
- Pálpebras pesadas
- Cabeça caindo
- Esfregar os olhos
- Bocejos
- Visão borrada
- Piscamentos fortes e freqüentes
- Dificuldade para focalizar
- Virar os olhos para os lados
Refeição
No após refeição
o que acontece é a distensão do tubo digestivo,
maior o fluxo de sangue para as vísceras para promoção
do processo digestivo, ao mesmo tempo ocorre produção
da melatonina por estímulo dos carboidratos ingeridos,
daí o aparecimento de sonolência que se intensificará
se o ambiente tiver pouca luz.
É fácil entender se compararmos o torpor e
sonolência que acontece após almoço
e jantar. No jantar ficamos mais sonolentos porque é
noite ocorre grande redução da luz ambiente.
Se após o almoço houver exposição
aos raios solares seremos induzidos também ao sono.
O trabalho no terceiro turno
se torna extremamente perigoso por que involuntariamente
o sono aparece e o indivíduo tem que buscar estímulos
contrários, o que não é recomendável.
No caso do motorista, durante
a jornada de trabalho, após 4 h de iniciado o trabalho
ocorre lapso de atenção. Após 8 h surge
déficit de atenção e o risco de acidente
aumenta em duas vezes. Os distúrbios do sono são
responsáveis por essas falhas de atenção
que invariavelmente levam ao acidente.
Entre os distúrbios do sono
temos:
- Privação
do sono
- Sonolência excessiva diurna
A privação
do sono é decorrente dos problemas individuais e
sociais.
Além de trabalhar
precisa ir para a escola. Chega muito tarde, vai dormir
meia noite e tem que acordar às 5h da manhã.
Dorme na verdade 4 ou 5 h quando a sua necessidade era muito
mais. Sem ter dormido o suficiente, no dia seguinte enfrenta
nova jornada e durante todo esse dia vai ser de indisposição,
baixa produtividade, raciocínio embotado, mau humor,
etc.
O sono diminui em 50 % a
concentração, produção e qualidade
do trabalho.
Sabemos que 56 % dos trabalhadores
adormecem no trabalho e 42 % são privados do sono.
A sonolência excessiva diurna pode ter várias
causas:
- Síndrome da Apnéia
Obstrutiva do Sono
- Síndrome da limitação de fluxo
- Narcolepsia
- Síndrome Depressiva
- Movimento Periódico de Membros
- Hipersonia Idiopática
- Abstinência de estimulantes
- Sono Inadequado
- Sedativos
- Hipersonia pós Traumática



Quando tratamos de direção
veicular a causa mais importante da sonolência excessiva
diurna é sem dúvida a síndrome da apnéia
obstrutiva do sono. O que ocorre nesta síndrome é
a parada respiratória (apnéia) durante o sono
devido à obstrução da via respiratória.
O indivíduo ronca durante o sono e faz pausas respiratórias
seguidas de agitação que o faz respirar novamente.
A característica principal do paciente é que
é um roncador, quase sempre com peso acima do ideal.
Trata-se de uma patologia
crônica, evolutiva, incapacitante e que pode levar
a morte súbita durante o sono.
É a segunda doença
respiratória, a primeira é a asma. Não
se consegue aprofundar o sono e se superficializa mais ainda
quando se agita e volta a respirar, com isso não
é repousante. Acorda-se como se tivesse dormido pouco
e no resto do dia isso será notado pelo portador
e pelas pessoas que tiverem ao seu redor. Terá um
dia com todos os sinais de sonolência e será
capaz de dormir em qualquer local, sob qualquer condição.
Detectado pelo médico
será incapacitado para o trabalho na direção
veicular.
Do universo de motoristas
15 % são portadores desse quadro.
O diagnóstico é feito através da história
do paciente ou do acompanhante, pelo índice de Epiworth
e o índice de massa corpórea (IMC), pelo perímetro
cervical suspeitamos e confirmamos através da polissonografia.
Na história é comum como queixa principal
os roncos, parada da respiração, agitação
ou se bater durante o sono, às vezes cianose (cor
roxa na face) e durante o dia dorme sem motivo aparente.



No índice de Epiworth
pergunta-se ao paciente através de um impresso se
dorme em determinadas condições como, por
exemplo, sentado na sala de espera do médico, na
fila do banco, etc. Cada resposta terá valor de zero
a três dependendo da intensidade da ocorrência.
Quando o somatório é maior que nove dizemos
que o índice de Epiworth é positivo, sendo
então suspeito
de ser portador.
O Índice de Massa
Corpórea (IMC) é igual ao peso em quilogramas
sobre a altura ao quadrado (em metro quadrado).
IMC
= Peso (Kg) / Altura²
(m²)
Sendo maior que 27,2 kg/
m² na mulher e 27,8 kg/m² no homem serão
considerados suspeitos. O perímetro cervical maior
que 38 cm na mulher e 43,2 cm no homem também serão
suspeitos.
O único exame que
comprova a patologia é a polissonografia.
Monitoriza-se o paciente
durante o sono e acompanha-se a evolução.
A Resolução
80/98 do CONTRAN recomenda que todo candidato a motorista
deve ser avaliado com relação à síndrome
da apnéia obstrutiva do sono.
Toda essa preocupação
com relação a esta síndrome justifica-se
por que ela aumenta em três a sete vezes o risco de
acidente. Sabemos ainda que o motorista fica em média
sessenta ou mais horas na direção por semana
o que propicia a fadiga que por sua vez facilita o aparecimento
dos sinais e sintomas decorrentes dos distúrbios
do sono.
42 % dos acidentes são
causados pelo sono
18 % dos acidentes são causados pela fadiga
O tratamento da Síndrome
da Apnéia Obstrutiva do Sono pode ser feito com medicamento,
mudança de comportamento, uso de equipamento mecânico,
cirurgia e combinações desses tratamentos.
Outros fatores concorrentes
para indução ao sono e que os motoristas são
submetidos são o ruído uniforme e contínuo,
a vibração de corpo inteiro e o movimento
pendular do tronco e cabeça quando na direção
veicular. O somatório desses fatores gera torpor
e sonolência e é como se o indivíduo
estivesse sendo embalado como uma criança no colo
da mãe. Isto somado a fadiga e ao sono produzido
pelos outros fatores citados é igual a sinistro.
Local do Sono
É comum vermos o motorista
dormir no interior do veículo, no bagageiro, na rede,
na boléia, no dormitório da empresa dentro
da garage onde é feita manutenção mecânica
e funilaria. Muitas vezes em dormitórios coletivos,
onde entra e sai a todo o momento múltiplas pessoas,
onde o falatório é constante, não se
conseguindo o repouso desejado. Tudo isso impede que o sono
seja bem aproveitado, repousante e que recomponha o corpo
e a mente para uma nova jornada.
O ambiente deve ser no máximo
com dois leitos, penumbra, bem ventilado, higienizado e
sem ruído.
Quantas horas de sono?
A duração do
sono é individual, uns necessitam mais outros menos,
mas costumamos recomendar que se aproveite pelo menos oito
horas de sono, isso imediatamente antes de iniciar a jornada
de trabalho.
Turno de trabalho
É comum na atividade
de motorista existir a alternância de turno de trabalho.
Precisamos lembrar que o organismo tem o seu relógio
biológico que funciona respeitando toda a característica
individual. Desta forma precisamos entender que há
necessidade de adaptação e treinamento para
desenvolver atividade nas mudanças de turno. O tempo
é essencial para essa adaptação e uma
vez adaptado jamais será trocado sem o tempo hábil
para adequação orgânica.
Quanto tempo deve-se dirigir?
O trabalho é penoso
porque se submete o motorista ao estresse físico,
psicológico e social além dos riscos inerentes
como o ruído, vibração, variações
térmicas, vapores, gases, poeiras, fuligem e condições
ergonômicas desfavoráveis.
Recomendamos que a jornada
seja de no máximo seis horas e que a cada duas horas
haja pausa quando o motorista desce do veículo, faz
uma caminhada ao redor, faz ainda um alongamento e após
dez a quinze minutos reassume a atividade. As jornadas de
doze e até quatorze horas são absurdas, incompatíveis
com trabalho seguro e de qualidade. Neste caso a saúde
do motorista estará comprometida.
Com
que intervalo?
O intervalo entre uma jornada
e outra deve ser de dezoito horas reservadas para o lazer,
atividade social e dormir. Muitas vezes fazem duas jornadas
por dia, uma no horário de pico da manhã (04h00min
às 2h00min) e outra à tarde (16h: 00 min.
às 22h: 00 min.) o que é totalmente condenado.
Conclusão
É preciso que todos
estejam conscientizados do trabalho extremamente penoso
desenvolvido na direção veicular. Empresários
e motoristas conscientes da missão e dos riscos do
trabalho que desenvolvem deverão atuar de maneira
preventiva com objetivo de melhorar a qualidade do trabalho
e reduzir acidentes.
Hoje sabemos que 93 % dos acidentes na área de transporte
são causados por falha humana e a fadiga e o sono
correspondem a 60 %.
Referências:
Paxinos G, Watson C. The
rat brain in stereotaxic coordinates. Sydney: Academic Press,
1997
Raol RJ. Modification of seizure activity by electrical
stimulation. II. Motor Seizure. Eletroencephalogr Clin Neurophysiol.
1972 b: 32 (3): 281-94 Johns, M. W., A new method for measuring
daytime sleepiness: the Epworth Sleepiness Scale. Sleep,
1991. 14(6): p. 540-5 Bland, J.M. and D. G. Altman, Measuring
agreement in method comparison studies. Stat Methods Med
Res, 1999. 8(2): p. 135-60



Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior
Diretor do Departamento de Medicina Ocupacional da ABRAMET
Associação Brasileira de Medicina de Tráfego
www.abramet.com.br
dirceu.rodrigues5@terra.com.br

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